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JUIZ DE FORA - 8/11/2021 - 17:28



“Peça da Semana” exibe charge de famosa revista carioca no século 19



Portal de Notícias PJF | “Peça da Semana” exibe charge de famosa revista carioca no século 19 | MUSEU MARIANO PROCÓPIO - 8/11/2021
Nesta segunda-feira, dia 8, a websérie “A Peça da Semana” apresenta uma charge da famosa "Revista Ilustrada" (Rio de Janeiro, ano 12, n. 476, 1887), de autoria do caricaturista ngelo Agostini. Trata-se de uma das inúmeras charges que, tendo circulado no Brasil nas décadas finais do século 19, contribuíram para o chamado “movimento republicano”, responsável pela queda da monarquia brasileira em 15 de novembro de 1889. Detalhes da publicação no Instagram @museumarianoprocopio e no Facebook @museu.marianoprocopio.

Estudos mais recentes mostram que o Brasil, na década de 1880, conheceu significativa expansão do espaço público. Aumentava-se nesse contexto a circulação de periódicos, que faziam críticas ao regime monárquico e às mazelas políticas e sociais do Império. Muito usadas na época, as revistas ilustradas exploravam a temática através de charges e caricaturas. Em uma população, cuja maioria não sabia ler e escrever, a linguagem não verbal conseguia atingir um público mais amplo que o alfabetizado. A "Revista Ilustrada" se inseriu nesse grupo. Joaquim Nabuco (1849-1910) a caracterizava como a “Bíblia abolicionista dos que não sabiam ler” e Monteiro Lobato (1882-1948) dizia que “não havia casa em que não penetrasse a Revista, e tanto deliciava as cidades como as fazendas”.

Fundado por Ângelo Agostini em 1876, o referido periódico circulou até 1898. Com uma tiragem que atingiu a marca de quatro mil exemplares, alcançou grande parte do território nacional, levando temas polêmicos ao público. Durante grande parte de sua existência, a revista não contou com a ajuda de patrocinadores e se sustentava com a venda de seus exemplares, o que lhe garantiu maior autonomia na veiculação de críticas à monarquia, à escravidão, à união entre Igreja e Estado (propugnada pela Constituição de 1824), dentre outras.

Seu fundador nasceu na Itália em 1842 e morou na França durante boa parte de sua infância e adolescência, onde recebeu formação artística e influências libertárias. Veio para o Brasil em 1859, iniciando seus trabalhos como pintor retratista em São Paulo. Na imprensa, começou como desenhista do jornal "O Diabo Coxo", no qual iniciou contato mais consistente com ideais abolicionistas. Durante a década de 1880, escancarou as páginas da Revista Ilustrada para charges e caricaturas que denunciavam não apenas os abusos cometidos contra os escravos, mas também os embates políticos travados entre abolicionistas e escravocratas.

Na charge escolhida para esta semana, pode-se observar que o desenhista utilizou um conjunto de representações que visam a desqualificar e/ou dessacralizar o regime monárquico. Observa-se o monarca sobre um carro de bois, circulando em estrada repleta de lama. Atrás do carro de bois, escravizados são açoitados por um escravocrata a cavalo. O estandarte ao lado do imperador traz estampados o desenho de um caranguejo e a frase “Quero, posso e devo manter a escravidão”. Todos esses elementos situados ao lado direito da charge de Agostini se associam ao atraso, ao passo que, do lado esquerdo, numa topografia mais elevada, encontra-se uma aglomeração de pessoas articuladas e engajadas na luta abolicionista e, portanto, simbolizando a afeição pelos ideais liberais pautados na busca da civilização e do progresso. Essa representação humorística está em sintonia com a tônica da obra de Agostini: a construção de representações simbólicas contrastantes, nas quais a república é associada à positividade, avanço, progresso e modernidade, ao passo que a monarquia está relacionada à negatividade, ao atraso e às tradições que, segundo o autor, seriam as responsáveis pela manutenção das mazelas da sociedade brasileira, como a escravidão, a corrupção, etc.

Como toda representação, a charge é uma construção realizada no campo da linguagem. Concebê-la dessa forma requer um esforço crítico de situá-la no contexto histórico em que foi produzida. Além disso, é necessário entender os pensamentos, a formação e as ideologias professadas pelo artista, que, nesse caso, mostra-se profundamente engajado nos movimentos republicano e abolicionista. Dessa forma, não é surpreendente constatar seu esforço de dessacralização, através do humor, dos símbolos e rituais associados à monarquia e, é claro, ao imperador. É através dos usos de símbolos e representações que dialogam com o imaginário social que os regimes políticos foram e são construídos ao longo da história.





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